Um livro e um gauchão
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Rosane Pereira
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Perdoem se parece “faísca atrasada”
o que vocês vão ler aqui. Mas é que faz muito pouco tempo que tomei
conhecimento de como foi o jogo do meu primeiro livro, o romance que publiquei
em agosto de 2009 sob o título Estranhos,
Noturnos... e amantes – Retrouvailles on-line, no campeonato ao qual chamam
de Gauchão de literatura, em julho de
2011. Foi um leitor muito respeitoso quem me informou o resultado, querendo
saber minha opinião. Expliquei a ele que jamais entendi direito como funcionava
essa competição literária, nem sabia que era virtual e não acompanhei o
andamento dela. Entretanto, depois dessa
conversa com ele, coloquei meu nome no buscador do Google, e lá estava eu, em campo com ninguém menos do que Luis
Fernando Veríssimo com seu livro Os
espiões, uma obra-prima. Fiquei surpresa e honrada, pois entrar em campo
com meu primeiríssimo e humilde livro, abrindo o campeonato com um escritor que
já é um cânone da nossa literatura, não é pouca coisa. Mas também, isso
aumentou muito minha impossibilidade de entender o critério da competição.
Com relação ao que o juiz da
partida, o Sr. Luis Paulo Faccioli, disse sobre meu livro, me pareceu
totalmente bem fundado, com algumas ressalvas que farei mais tarde. Ele teve
toda a razão em ficar profundamente indignado com as falhas de revisão, falhas
imputadas com justeza somente à autora, já que a mim cabia a ultima releitura e
correções antes da impressão. De nada adianta eu explicar que por algum motivo
que me escapa, talvez pela passagem do arquivo por vários computadores, além de
algumas teimosias do corretor de português e francês que estava instalado em
meu computador daquela época, a última correção que fiz não entrou no programa
da gráfica. Isso em nada justifica os imperdoáveis quatro erros com ortografia
de nomes próprios, além de alguns erros de pontuação e uma confusão atroz com a
ortografia do verbo esquecer no modo imperativo. Onde era para ser “não
esqueça”, saiu “não esquece” com “ç”,( na página 172). O pior de tudo é que
somente me dei conta que esses erros grosseiros haviam permanecido no texto do
livro quando a edição já estava quase toda vendida. Aliás, justamente quando o
roteiro era preparado para a montagem da peça no centro cultural “Fernando em
Pessoa”, em julho de 2010.
Depois do lançamento, não abri o
livro durante vários meses. Preferi que os leitores fizessem isso. E de fato,
durante vários meses recebi e-mails de homens e mulheres que haviam se
emocionado com a história de Yasmina e Mathieu e que faziam questão de me falar
do efeito dessa leitura neles. Todos em alguma medida se sentiam parecidos com
meus personagens, e também falavam do quanto haviam reencontrado naquela
narrativa alguma coisa da intensidade de seus próprios amores. Dentre esses
leitores, vários haviam começado a ler Baudelaire e Duras depois de ler meu
romance, e me agradeciam por isso. Outros estavam adorando ouvir os Noturnos de
Chopin pensando em suas noites de amor, outros ainda me diziam sentirem-se
menos bobinhos por escreverem e-mails amorosos. Houve até mesmo um bom número
de leitores que passou a se interessar por Don Juan (Don Giovanni) e a se
colocar questões sobre sedução. Também foram numerosos os que agradeciam ter
podido “reler” suas separações, repensar suas ambivalências etc. E todos eles
me pareciam ser pessoas que gostavam muito de ler. O mais importante é que
estavam todos eles em um grau de intimidade bastante grande com meus
narradores-personagens. Deve ser este mesmo fenômeno que fez com que as duas
encenações do romance tivessem salas lotadas com filas externas frustradas. Foi
assim na feira do livro de 2009, no auditório Barbosa Lessa, foi assim no
“Fernando em Pessoa”, meses depois.
Toda essa empatia me permitiu
concluir que havia dado certo fazer da literatura e da música uma espécie de
co-personagens. Admito certo exagero no
quanto coloquei de referências e de língua literária na fala dos personagens,
embora eles falem principalmente a língua de Baudelaire e Duras. Mas sou
obrigada a revelar que, na verdade, eu estava tentando colocar um ponto de
interrogação sobre o estrondoso sucesso da literatura de ideias fáceis, e
talvez, sem me dar conta, tenha seguido a mesma proporção em exagero. Como
conseqüência, tive o prazer de constatar que meus leitores me falavam de Yasmina
e de Mathieu com a desenvoltura de quem fala de amigos próximos, e com essa
mesma desenvoltura eles comentavam suas leituras de Duras ou Baudelaire. Eu não
poderia esperar melhor retorno do que esse.
Considerando que o número de leitores que me escreveu foi significativo
, me parece importante que nenhum deles tenha se referido a qualquer erro
ortográfico ou de pontuação, pois eles estavam à vontade para fazê-lo. Isso é o que chamo de boa fé de leitor, o que
nada tem a ver com ignorância de leitor. Eles simplesmente privilegiaram a
trama, o que é normal, uma vez que leitor não é corretor. Mas na verdade, foi
uma pena eles nada assinalarem sobre erros, pois eu teria podido pelo menos
pedir-lhes desculpas pela minha negligência de autora.
Entretanto, consigo imaginar o
quanto pode ter sido duro para o juiz que arbitrou o jogo, “sofrer” a leitura
de meu romance. Além disso, fiquei muito surpresa em saber que uma só pessoa
daria conta dos dois “times”. Imaginei que cada crítico falaria de um livro do
qual gostou. E uma vez que narrativa literária e arte retórica são tão íntimas,
cada livro teria seu defensor. Ou seja, imaginei que o campeonato seria um jogo
de retórica de críticos que defenderiam cada um uma obra, e não a avaliação
sentenciadora de um pensamento único. Meus colegas psicanalistas provavelmente
ririam dessa minha ingenuidade colocando-a no ranking das teorias sexuais infantis. Algo assim como acreditar que as crianças
nascem dos repolhos. Mas é que eu realmente acho uma crueldade alguém ter que
dar conta da leitura de um livro do qual não gostou. Já bastam as faculdades de
letras com seus programas, nos quais por vezes não é fácil sobreviver a autores
massacrantes.
Obviamente, sei que ele não deve
ser o único leitor que não gostou do que escrevi. Com certeza muitas outras
pessoas não gostaram. Assim acontece com todos os livros. Nem sempre uma obra
vai parar nas mãos do destinatário certo, e ainda bem que é assim, pois uma
obra com a qual todos simpatizam...
O que particularmente me interessou
nos comentários do Sr. Faccioli foi o que ele disse a respeito dos flâneurs que parecem “roubados de um filme da nouvelle vague”, que ele teria reconhecido em meus personagens durante
a viagem deles a Paris. Antes de qualquer coisa, vejo isso como uma imensa
lisonja. Adoro a nouvelle vague, e
justamente o “jogo da memória” que meus personagens fazem é uma homenagem a Hiroshima mon amour, de Marguerite
Duras. Quanto aos flâneurs, é uma excelente
evocação de Baudelaire, então melhor ainda, pois nada é mais emblemático da
modernidade literária na França do que essa figura que Baudelaire transformou
em um observador de invejável atitude crítica. Assim, considerando que Duras e
Baudelaire não deixam de ser flâneurs
nas narrativas dos meus personagens, essa ideia do juiz certamente me agradou
muito. Mas confesso que não entendi o que ela pode significar para ele. Ficou a
questão de saber o que este senhor teria contra a figura do flâneur
ou contra a nouvelle vague.
Difícil mesmo é saber o que o
juiz quis dizer com “personagens de carne e osso”. Provavelmente ele estava
falando de verossimilhança. Ou seja, do quanto eles deveriam ser parecidos com
a verdade de todos nós. Como Yasmina diz, ela e Mathieu são “apenas um homem e uma mulher”. E creio
que se os dois, assim como os personagens que povoam suas lembranças na troca
de cartas eletrônicas, não fossem “de
carne e osso”, não teriam lotado as salas de espetáculo onde foram
encenados. E muito menos teriam feito tantas pessoas perderem seu tempo
escrevendo para me dizer o quanto se sentiram parecidas com eles.
Ademais, cada escritor se vira
com a fonte da qual dispõe para extrair a textura de sua narrativa, assim como
deve se virar com o estilo que é o seu. Muitos escolhem a vida que observam com
extraordinária fineza, outros escolhem seu próprio universo, a vida que vivem.
Foi o meu caso para este romance.
Fiquei estupefata com o
assinalamento do Sr. Faccioli: “...não há lugar para drogados ou porteiros
nessa narrativa”. Tenho muito respeito pelos porteiros e pelos drogados, porém
não vejo em que eles seriam mais ou menos humanos do que uma psicanalista, um
pianista ou uma jovem violoncelista. Também não posso deixar de colocar aqui a
questão de saber em que tábua estaria escrita a lei que proíbe ou invalida que
artistas ou intelectuais sejam personagens de obras de ficção. Seria algum
constrangimento de vanguarda?
Além disso, o personagem que ele
assinala como exemplo de minha exagerada idealização, o “ex-marido diretor de
cinema”, não faço a menor idéia de onde ele tirou essa figura. O único personagem
ex-marido é advogado e filósofo. O personagem diretor de cinema é o namorado da
filha da narradora, que aparece em não mais do que duas falas. Obviamente que
este equívoco em nada me espantou, pois me parece natural que alguém que lê
tantos livros possa confundir personagens. E por falar nisso, aproveito para
avisá-lo que sua ortografia de ´´lá voilà´´, para dizer que a história
finalmente começa, está com um acento que não existe em ´´lá´´. Trata-se de um
artigo definido, e em hipótese alguma um artigo é acentuado na língua francesa.
Mas isso também é completamente irrelevante, diante da grandiosidade do teor de
sua crítica. Assinalo-o apenas para lembrar o quanto é fácil passar um erro de
ortografia, mesmo para pessoas rigorosas em correção.
Quanto ao meu
estilo e ao andamento da trama, compreendo seu descontentamento, sua impossível
simpatia, mas não há o que fazer. Lamento o tempo que ele investiu na leitura de
meu livro, e o quanto ela, segundo ele mesmo, lhe pareceu enfadonha. Mas
sinceramente, não me incomoda nem um pouco que meu livro seja tão familiar e
agradável a um grande número de pessoas que o leram e tão “estranho” e
desagradável a várias outras.
No mais, somente me resta
expressar minha gratidão ao Sr. Faccioli por sua valiosa leitura e seu generoso
comentário. E claro, agradecer também às pessoas que organizaram o campeonato e
que propuseram meu livro como “time”. Não creio que sejam pessoas distraídas
enquanto leitoras. Ao contrário, somente pessoas com sensibilidade literária e
muita estrada percorrida na literatura poderiam fazer um trabalho como esse.
E por último, reitero
meu respeito pela competição da qual meu livro participou. Em nenhum aspecto
ela poderia ser vista como a fogueira medieval de alguma sacrossanta
inteligência literária gaúcha, e menos ainda como alguma patrulha do verbo. São
leituras, e leituras são sempre subjetivas e benignas.
Um livro e uma crítica
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Rosane Pereira
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Texto de Lucia Serrano Pereira, crítica literária e psicanalista, autora
(entre outros títulos) de Um narrador
incerto – Entre o Estranho e o Familiar(Cia. De Freud, 2004), Conto Machadiano – uma experiência da
vertigem(Cia. De Freud, 2008) e Que
queres tu de mim?(Unisinos, 2011). Publicado
na Revista Norte – Livros, artes e idéias, n. 10, outubro 2009.
Estranhos, Noturnos... e amantes? A
impressão de saída, no traço mínimo dos primeiros três elementos, é a de que a
narrativa vai imprimir um ambiente a ser percorrido perto do sombrio, de
neblina que se arma insidiosamente, plasticamente pautado pela capa do livro,
um homem e uma mulher misturados nas pinceladas coloridas, contornos
inexistentes, sugeridos pelos tons fortes, vermelho, azul, e o preto que avança
sobre os corpos. Certo que é preciso ir até o fim para esperar o efeito da
leitura, mas inevitável que já sejamos afetados desde o primeiro tempo, E assim
entrei no livro. Se esse flash inicial se confirma? Sim e não: a experiência na
leitura é de fluidez e muitas vezes de perda dos contornos, pois essa é uma das
questões fortes da trama. Mas tem o imprevisto, tudo isso se arma - e aí vem o
choque de registros - no contemporâneo ambiente dos encontros virtuais: ela, yasmina@retrouvailles.com, ele mathieu@oubli.com . Choque, passagem da impressão
do romantismo para algo de outro tempo, modernidade (agora para além da pós...)
que cai muito bem no rendimento estético do texto (não podia deixar de ser, já
que Baudelaire está sempre nas proximidades...).
O livro encontra
seu lugar na interessante linhagem dos romances epistolares, como lembra Pedro
Gonzaga no prefácio, nomeando Choderlos de Laclos como um dos pais da vertente;
o autor é conhecido por seu Ligações Perigosas que, também na tela
encontrou herdeiros que marcaram toda uma geração de cinema - quem não lembra
John Malkovitch nos atordoando na perversão das cartas que matavam de angústia
o espectador do filme, jogado entre a verdade e a mentira, o desencontro e as
fatalidades?
Rosane mexe
também com as cartas, faz o transporte atualizando a “lettre” no e-mail com tudo de novo que isso implica – velocidade,
lapsos, palavras perdidas, enviadas, postas no lixo e, surpreendentemente, com
suas rotas alteradas pelo click em algum ícone desapercebido.
Tudo começa,
efetivamente por um lapso de Yasmina, que guarda a correspondência trocada com
Mathieu nesse limbo que é a lixeira antes do golpe de misericórdia da segunda
morte, o esvaziamento da dita. Nesse entre-dois -lugares ela é levada pela mão
que digita o ato falho e, claro, no sem
querer que conhecemos, reenvia a Mathieu algumas das mensagens que haviam
trocado, referidas a “àquele verão”.
Retrouvailles
on line, subtítulo do livro, pauta os acontecimentos. Palavra cheia de
nuances no francês, serve para reencontros. Em nossa língua, tem a ver com o
encontro entre pessoas que estiveram
separadas por um tempo ou circunstâncias, mas, avançando na perspectiva da sutileza da
palavra, pode-se incluir um ingrediente discreto, e especial: algo da surpresa. Como no lapso que se encarregou
de iniciar a coisa toda. De novo. De outra forma. Quando se trata de retrouvailles, algo do inusitado pode andar
por perto.
Retrouvailles.com faz parte do endereço
de Yasmina. E é pela voz dela que somos conduzidos mais consistentemente.
Talvez porque a posição de Mathieu seja de saída marcada por aquilo que seu
endereço fixa: oubli, o esquecimento.
Ao receber as mensagens que Yasmina lhe envia por engano, ele propõe um jogo:
pede a ela que lhe “devolva a memória”, enviando a correspondência trocada de
forma a recuperar a história de amor que viveram, e também de forma a reinscrevê-la nas suas
vidas em um lugar menos marcado
pela necessidade de apagamento que as circunstâncias da época impuseram como
desfecho. Ocorre que as mensagens daquele tempo não têm mais recuperação (e não
é assim mesmo?), e o jogo que se institui é bem mais interessante: escrever de
novo. Espécie de jogo da memória na troca de mails que vão narrar o romance de
um verão intenso, tempo do encontro entre Yasmina, brasileira apaixonada pela
França em sua língua, poetas, escritores, artistas, e Mathieu, francês que fez
sua vida no Brasil, e que se falam atravessados pelos escritos de Marguerite
Duras (La maladie de la mort) e
Baudelaire (Les Fleurs du mal).
Estranhos,
estrangeiros, pela alteridade ressaltada a cada passo: “Nosso problema foi sermos um homem e uma mulher. Era essa a diferença
que fazia de nós dois estrangeiros”. É então cruzando essas fronteiras,
terras outras, por vezes permeada pela Outra cena - expressão freudiana para o
movimento do inconsciente - que acompanhamos o amor, o ódio, o gozo, o
desespero e todos os mal entendidos que perpassam as leituras das lembranças de
cada um. A força da narrativa aí se apresenta: A intensidade que não se recobre
e que cria as condições para que eles ousem tanto em seu caminhar no fio da
navalha no despertar em
Porto Alegre, nas chuvas parisienses,nas noites de amor e de
sexo, e nas brutais situações de desamparo.
As
canções francesas e brasileiras, as sonatas, a ópera e o jazz, o cello e as
árias, tudo isso institui a cena, em especial um Noturno de Chopin. “...o ritmo de nossos corpos, nossa frase, o
compasso de nosso desejo, era isso que eu falava quando respondi -...são
noturnos... Fui feliz com nossos noturnos”. Noturnos que pontuam, por outra via, alguns
lutos desses dois amantes pela vida afora. Amantes, Yasmina diz na mensagem “Les fraises silvestres” (mais uma
homenagem cinematográfica, dessa vez aos Morangos
Silvestres de Bergman) – amantes são sempre os mesmos. “Ou melhor, o amor, o desejo, a paixão são sempre os mesmos. O que
muda, e por isso é mágico, é o jeito de acontecer, é multiforme”.
E assim o quadro é pintado.
Intimidador, onírico, desfocado como em “Les
amants”, que leva a narrativa junto com Goya, Rafael e outros artistas.
No
final, a despedida, depois da tentativa em dar conta de como cada um viveu o
romance e a separação ( “Houve uma vez um
verão”, poderíamos evocar aqui, como inscrição do tempo de um encontro
fulgurante).
Tristesse.
L’incontournable. Un rendez-vous? Les hivers. Encore les adieux. O incontornável,
a tristeza que antecipa a nova separação, a vacilação, quem sabe ainda a saída do
virtual e um encontro, a presença? Vamos acompanhando esse passo a passo sinuoso
pelo fio da meada escrito acima de cada mensagem. Uma a uma, elas se sucedem no
livro. A cada uma seu intervalo, o silêncio, a espera. O escrito em cinza light
está ali, pairando antes de cada mensagem, como um título de capítulo, valendo
como um ponto condensador daquele trecho a percorrer. A marca da delicadeza
tramada com as palavras de outra língua, o norte, o claro no jogo com o noturno,
conduzindo o leitor com fineza e discrição pelo labirinto.
Vamos por entre os contrastes até o
fim. A aventura dos personagens na releitura da história amorosa resulta em
deslocamento, como passo de elaboração: de um amor que beirava o caminho da
lixeira, dor e presença mal assombrada, no fim, a retrouvaille como processo que trabalhou sobre cada um. Diz
Yasmina “Não, não poderíamos nos
encontrar algum dia, para falar de tudo isso. Não precisamos. Falaremos de tudo
isso vivendo nossas vidas. Posso te encontrar em cada ópera que escutar, em
cada linha que eu escrever, em cada chuva que cair, em cada homem que me amar
[...]. Vês quanta coisa ficou?”
A estréia de Rosane Pereira na
ficção destaca o que é da ordem do paradoxal no que podemos constituir como
experiência: essa propriedade, na vida, quando não recuamos das intensidades
que nos toca viver, ela pode nos dar muito.
Um livro e uma resenha
Resenha de Maíra Brum Rieck, psicanalista,
co-organizadora de Mulheres achadas e perdidas, 2012. Publicada no Correio da Associação Psicanalítica de
Porto Alegre-APPOA, outubro de 2009
Estranhos, Noturnos... e amantes – Retrouvailles on-line
Remexendo na
lixeira do computador (ou do amor), Yasmina, num ato falho, envia a seu
ex-amante, Mathieu, mensagens trocadas entre eles. Para sua surpresa, o lapso
que lhe causou tanta vergonha volta com um pedido: o de que recontasse a
história vivida pelos dois. O que ela vai contar? Como irá contar? O que ficou
em sua lembrança e o que se perdeu? Quais as reminiscências compartilhadas
entre eles e quais as que diferem? Assim começa “Estranhos, Noturnos... e amantes”, estréia de Rosane Pereira na
literatura.
O texto nos
faz sentir, do início ao fim, a eterna incompatibilidade, incompletude e
impossibilidade do encontro com o outro.
Ele nos questiona, nos faz lembrar. Enlaça o leitor para além de si
mesmo e o convoca a remexer no incorporado de suas próprias lembranças.
Os personagens
partem de uma brincadeira supostamente inocente, supostamente compartilhada,
mas que os leva para o desconhecido. Não sabem o que ficou para o outro - ou para
si mesmos - desta história de amor. Yasmina conta, re-conta, lembra e re-lembra
o vivido, faz com que o personagem da trama, Mathieu, transforme-se em leitor.
Descarnado, transforma-se em outra coisa.
Remexer na
lixeira do amor é transformar o que restou, é pegar o lixo e fazer outra coisa
com ele. Yasmina, ao lembrar o que se passou, criou uma ficção, mas ficção
compartilhada com aquele com quem viveu. Endereçou, no ato falho, o resto da
lixeira para quem devia e encontrou o destinatário.
Mas Mathieu
era o mesmo homem de suas lembranças? Aquele que recebia “de volta” sua
história vivida era o mesmo que viveu a coisa? O que ela queria lhe devolver?
Escrevemos para
esquecer. Mas o que fica? O que resta? São todos os amantes que nos fazem
marcas? E que marcas são estas? As marcas que ficam condizem com o amante da
realidade ou foram produzidas nesse espaço entre
os dois, na relação em si?
O livro nos
mostra o quanto somos estrangeiros uns aos outros e aponta para a
impossibilidade das relações, mas impossibilidade que é a única possibilidade.
O amor como esse impossível que vale a pena. O livro nos pergunta quem são
esses estrangeiros que escolhemos para amar e o que eles dizem de nós mesmos.
No evento “Conversa de Botequim” que
ocorreu na livraria Botequim das Letras, Rosane conta que cometeu
um ato falho no livro. Escreve (na pág. 253): “querias poder falar comigo sobre
nossa possibilidade de continuar”,
mas confessa aos ouvintes daquela tarde que o que queria escrever era “querias
poder falar comigo sobre nossa impossibilidade
de continuar”. Sem falsas interpretações, não me parece qualquer o significante
em questão, já que o livro trata das possibilidades e impossibilidades do amor.
Mas não só
disso. Regado com clássicos musicais e literários, o livro é lido com a trilha
sonora dos amantes e seu encontro quase que misturado com as obras de
Marguerite Duras e Baudelaire. Encontro de sonho dos
amantes que acaba à luz do dia, quando Yasmina “acorda” e vê (pela primeira
vez?) o homem de carne e osso que ali está.
Inevitável lembrar do livro “Breve
Romance de Sonho” de Arthur Schnitzler que gerou o último filme de
Kubrick: “Eyes Wide Shut” (De Olhos Bem Fechados), que, se traduzido
literalmente, seria “olhos abertamente fechados”, com sua atmosfera de sonho. É
nessa construção da realidade, permeada por desejos, medos, fantasias que
encontramos o outro - sempre uma incógnita. Fingimos conhecê-lo, mas ele sempre
nos escapa, e, quanto mais escapa, mais perto está. É isso que Yasmina conta a
Mathieu e nos conta. Que estamos sempre de olhos abertamente fechados para que
o encontro amoroso aconteça.
Um livro e uma crítica
Jornal do Comércio, dia 28.08.09, crítica de J. Cimenti
Amores e desamores no tempo da internet
Será que nessa dita "era da comunicação" as novas tecnologias afastam ou aproximam as pessoas? É verdade que na internet a gente está com todo mundo e sozinho? Será que é mais fácil se expressar por e-mail do que cara a cara? Como é que andam as relações amorosas na rede? As palavras unem ou afastam as pessoas? Estas e outras coisas essenciais estão presentes e narradas, com elegância e palavras bem escolhidas e justas, no romance "epistolar" Estranhos, Noturnos... e amantes Retrouvailles on-line da psicanalista porto-
alegrense Rosane Pereira. A obra pertence à linhagem de
romances epistolares clássicos como As ligações perigosas, de Laclos e A caixa
preta do israelense Amos Oz.
Cometendo uma gafe
involuntária, a psicanalista Yasmina encaminha para seu ex-amante, o músico
Mathieu, uma mensagem trocada por eles quando ainda estavam juntos. A partir do
deslize virtual e de uma grande troca de mensagens eletrônicas, os dois passam
a recontar sua história de amor, numa espécie de "jogo da memória".
Mas a densa narrativa e os conteúdos dos e-mails não se limitam às idas e
vindas corriqueiras de um caso de amor e seus aspectos puramente emocionais e
amorosos. Os e-mails vão bem mais longe do que a fala sem fim dos sentimentos.
Em se tratando de personagens cultos e de gostos requintados, normal que as
relações amorosos venham em conjunto com referências literárias e musicais
clássicas e fundamentais, como, por exemplo, o imortal volume de poemas As
Flores do Mal, de Charles Baudelaire e Doença da Morte, de Marguerite Duras.
As melodias de
Jacques Brel e os Noturnos de Chopin também estão em meio às conversas
eletrônicas e presenciais dos dois amantes das letras e das artes que, claro,
também falam de outras pessoas e de outros amores e, como não poderia deixar de
ser, de memórias de infância e juventude.
Filmes de Bergman, canções de Mahalia Jackson e dezenas de
referências culturais atuais e antigas também estão no livro, que, acima de
tudo, é uma declaração de amor às palavras e ao poder de expressão, comunicação
e incomunicação que elas têm. Palavras que podem ser trançadas como a corda
usada para sair de um poço e ir à vida ou palavras de corda para algum tipo de
enforcamento.
Enfim, os leitores
brasileiros têm à disposição um bom romance sobre o amor e o desamor nos tempos
da internet, com estrutura, linguagem, forma e conteúdo adequados. Não é pouco.
Acesse! 280 páginas, R$ 35,00, prefácio de Pedro Gonzaga, Editoras Associadas,
telefone (51) 3222 4895 .
Jornal do Comércio, dia 28.08.09, crítica de J. Cimenti
Amores e desamores no tempo da internet
Será que nessa dita "era da comunicação" as novas tecnologias afastam ou aproximam as pessoas? É verdade que na internet a gente está com todo mundo e sozinho? Será que é mais fácil se expressar por e-mail do que cara a cara? Como é que andam as relações amorosas na rede? As palavras unem ou afastam as pessoas? Estas e outras coisas essenciais estão presentes e narradas, com elegância e palavras bem escolhidas e justas, no romance "epistolar" Estranhos, Noturnos... e amantes Retrouvailles on-line da psicanalista porto-
alegrense Rosane Pereira. A obra pertence à linhagem de romances epistolares clássicos como As ligações perigosas, de Laclos e A caixa preta do israelense Amos Oz.
alegrense Rosane Pereira. A obra pertence à linhagem de romances epistolares clássicos como As ligações perigosas, de Laclos e A caixa preta do israelense Amos Oz.
Cometendo uma gafe involuntária, a psicanalista Yasmina encaminha para seu ex-amante, o músico Mathieu, uma mensagem trocada por eles quando ainda estavam juntos. A partir do deslize virtual e de uma grande troca de mensagens eletrônicas, os dois passam a recontar sua história de amor, numa espécie de "jogo da memória". Mas a densa narrativa e os conteúdos dos e-mails não se limitam às idas e vindas corriqueiras de um caso de amor e seus aspectos puramente emocionais e amorosos. Os e-mails vão bem mais longe do que a fala sem fim dos sentimentos. Em se tratando de personagens cultos e de gostos requintados, normal que as relações amorosos venham em conjunto com referências literárias e musicais clássicas e fundamentais, como, por exemplo, o imortal volume de poemas As Flores do Mal, de Charles Baudelaire e Doença da Morte, de Marguerite Duras.
As melodias de Jacques Brel e os Noturnos de Chopin também estão em meio às conversas eletrônicas e presenciais dos dois amantes das letras e das artes que, claro, também falam de outras pessoas e de outros amores e, como não poderia deixar de ser, de memórias de infância e juventude.
Filmes de Bergman, canções de Mahalia Jackson e dezenas de referências culturais atuais e antigas também estão no livro, que, acima de tudo, é uma declaração de amor às palavras e ao poder de expressão, comunicação e incomunicação que elas têm. Palavras que podem ser trançadas como a corda usada para sair de um poço e ir à vida ou palavras de corda para algum tipo de enforcamento.
Emfim, os leitores brasileiros têm à disposição um bom romance sobre o amor e o desamor nos tempos da internet, com estrutura, linguagem, forma e conteúdo adequados. Não é pouco. Acesse! 280 páginas, R$ 35,00, prefácio de Pedro Gonzaga, Editoras Associadas, telefone (51) 3222 4895.
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